Monday, 29 October 2007

A QUATRO MÃOS


O meu Dono afagou-me os cabelos, distribuiu festas pelo meu lombo, depois, com um gesto, mandou-me segui-Lo.

Fiquei feliz quando vi as cordas. Adoro quando me amarra : sentir a restrição, o ar rarear, a crescente vulnerabilidade a que me sujeita, transporta-me para estados alterados de consciência. Atou-me o peito num shinju apertado, prendeu-me as mãos atrás das costas. Pela primeira vez, colocou-me uma venda nos olhos e tampões nos ouvidos. A minha pele passou a ser o único orgão de contacto com o exterior, tudo o resto era eu.

De joelhos, cega e surda, o prazer indiscritível de não saber o que se vai passar a seguir. Os minutos parecem mais longos, as sensações mais marcantes, os sentimentos mais profundos. Tudo ganha uma nova dimensão, elástica, extensível, maleável.

Sinto o corpo a minha frente. As duas mãos que me seguram a cabeça e ma orientam. Sorrio intimamente. Adoro dar prazer ao meu Dono, descobri um gosto em mim que me era desconhecido, um prazer que é meu mas cujo epicentro não está em mim, mas Nele.

Sinto o sexo forçar-me os lábios. De repente, há qualquer coisa em mim que desaba. Não reconheço a textura, não reconheço o sabor, não reconheço o cheiro daquele corpo. O meu cérebro tenta processar as informações, quase vejo os neurónios desconcertados a tentar cruzar os dados. Luzes vermelhas a piscar, o alarme a disparar. Alguma coisa em mim tenta ainda desacreditar, tenta fazer com que pareça impressão minha, tenta convencer-me do contrário, mas eu sei que não é assim.

Enquanto o caos continua dentro de mim, sinto duas mãos agarrar-me as ancas. O meu cérebro conta vertiginosamente as mãos sobre mim. Duas continuam a agarrar-me a cabeça, a forçá-la em movimentos de vaivém. Outras duas agarram-me vigorosamente pelos flancos.

Perante a evidência, a rendição.
As lágrimas rolam-me pela cara. Mantenho-me no limbo ainda algum tempo, indecisa entre a repulsão e a atracção.

O meu Dono arranca-me a venda.

"Sabes quem é? O j. O escravo que recusaste."

EXTRA-LARGE





O meu Dono não tem tamanho fixo. Antes de O conhecer, imaginava-O com uma certa dimensão, mas no primeiro olhar percebi que é muito maior.

Desconfio que possua pelo menos dois ou três corpos perfeitamente acondicionados uns dentro dos outros, como matrioskas. Suponho que opte, de forma mais ou menos consciente, por um ou outro, como uma roupa que se escolhe conforme a ocasião.

Ainda assim, às vezes, sinto-O transbordar, como se não coubesse naquele corpo, outras a estalar como se quisesse romper o invólucro, deixar para trás aquela membrana como uma espécie de lagarto, ou como um fato demasiado apertado, que há muito deixou de Lhe servir.

Mas é quando veste a pele de Dominador que o sinto crescer, como se o Seu poder sobre mim Lhe conferisse uma dose extra de volume corporal. Como se a Sua autoridade automaticamente Lhe acrescentasse massa muscular. Como se a Sua soberania Lhe adicionasse uma camada mais de matéria. Agiganta-se à medida que toma posse de mim, expande-se na proporção directa da Sua dominação.

E ambos sabemos que este não é o limite.



Friday, 26 October 2007

SENTIMENTO DE POSSE


Possuir, talvez seja, também, uma questão de tempo.

Depois da conquista, a real tomada de posse. Por direito.
Como um senhor feudal, olhar do alto o seu feudo, a sua propriedade recém adquirida e sentir "Isto é meu".
Como um gladiador sustenta pela primeira vez o gládio sobre a cabeça do vencido e sente verdadeiramente o que é dominar.
Sentir correr nas veias o poder absoluto sobre a coisa possuída.

Ao princípio haverá uma certa dose de deslumbramento, haverá que arranjar um espaço mental e físico para o objecto, haverá que definir como usá-lo e de que forma ele poderá ser útil, como combiná-lo com aquilo que já se possui.
Ou, se não se possui nada, abrir um novo compartimento para um novo sentimento, o sentimento de posse.
Suponho que o sentimento de posse não seja completamente inato - afinal nascemos sem nada senão um enorme potencial para tudo - mas um processo criativo e evolutivo, que, como qualquer outro, se adquire na medida exacta em que se investe nele, ou seja em que se lhe aplica energia e atenção.

Assim, o sentimento de posse não é estático, imutável e acabado, mas um sentimento vivo e dialéctico. Susceptível de crescer, expandir-se, consolidar-se.
E encontrar a todo o momento novas formas de expressão.




Sunday, 21 October 2007

RÓTULO


Definir-me como escrava seria erróneo, incompleto, inconforme. Sou escrava, sim, mas do meu Dono.

Não me baixo a mais ninguém senão a Ele, não me curvo perante nenhum outro. Não ajoelho a outros pés, não ofereço o meu corpo a outras mãos. Nenhum outro me dobra até ranger, me torce até chiar, me subjuga, me faz querer beijar o chão por onde passa. Não respondo a outra voz de comando, não me submeto a outro domínio que não o Seu. Só perante o meu Dono me anulo, me encolho, me transformo em nada. Só ao meu Dono reconheço poder total sobre a minha vida, só Ele sabe como me domar, só a Ele me rendo, me entrego. Só o meu Dono detem o poder de fazer de mim tudo o que quiser.

É esse o rótulo que trago tatuado na alma. Escrava do Senhor JB.

Friday, 19 October 2007

AQUI


Esta história é do meu Dono. Aqui todos nos curvamos à Sua passagem. Aqui não há limites para as Suas vontades, as Suas fantasias, os Seus caprichos. Não há fronteiras para a Sua imaginação. Aqui o tempo tem o ritmo que o meu Dono lhe imprime e o espaço desenha-se à Sua medida. Aqui nada é definitivo nem acabado. Aqui, os Seus desejos são a nossa realidade.

AVA ADORE


it's you that I adore
you will always be my whore
you'll be a mother to my child
and a child to my heart
we must never be apart

lovely girl
you're the beauty in my world
without you there aren't reasons left to find

and I'll pull your crooked teeth
you'll be perfect just like me
you'll be a lover in my bed
and a gun to my head
we must never be apart

lovely girl
you're the murder in my world
dressing coffins for the souls I've left to die

drinking mercury
to the mystery of all that you should ever leave behind
in time

in you I see dirty
in you I count stars
in you I feel so pretty
in you I taste God
in you I feel so hungry
in you I crash cars
we must never be apart

drinking mercury
to the mystery of all that you should ever seek to find

lovely girl
you're the murder in my world
dressing coffins for the souls I've left behind
in time

we must never be apart


The smashing pumpkins - Ava Adore



Thursday, 18 October 2007

DOMINAÇÃO PURA




Ao princípio custou-me um pouco a perceber. Não havia mise-en-scène, não havia rituais. Não havia dress-code, coleira nem iniciais, slave registers ou marcas na pele. Ao princípio não compreendia muito bem. Não havia padrões, não havia termo de comparação. Ao princípio fazia-me confusão. Não havia manuais de instruções, estereótipos. E de nada adiantaram as minhas alusões mais ou menos subtis a esta ou aquela preferência ou este ou aquele exemplo. De nada me serviu espernear, alucinar com gansos, e tecer teorias acerca do assunto. Tive que esquecer tudo o que tinha conhecido, tive que desconstruir todos os conceitos, esvaziar-me completamente, começar do zero. Só depois de atingir esse ponto de total despojamento pude compreender que não é preciso mais do que o olhar do meu Dono e as Suas mãos nuas para sentir a dominação pura. O Seu incontornável poder sobre mim. E que só a partir daí tudo o resto pode eventualmente começar a fazer algum sentido.




Wednesday, 17 October 2007

MAIS



Há quem se dê aos bocadinhos. Um pouco hoje, mais um pouco amanhã.
Há quem se dê por conveniência. Eu dou-me, tu das-me.
Há quem se dê com limites. Eu dou-me, mas só até onde me interessa.
Eu, ao meu Dono, dou-me toda, sem esperar nada em troca, e sem cláusulas. Sem letras miudínhas. Sem ressalvas. Sem excepções. Sem reservas.
Sou do meu Dono a todas as horas do dia e da noite e onde quer que vá sou Dele.
Depois, se me quer, Ele toma-me, usa-me, desfruta de mim na porção que quer, até onde quer, quando e onde quer.
E eu descubro que dar-me assim não me esgota, que quanto mais dou ao meu Dono mais quero e mais tenho para Lhe dar.

Tuesday, 16 October 2007

TEMPORARIAMENTE

Foto Alain Deljarrie

Estou temporariamente encerrada numa bolha. Daqui vejo claramente tudo o resto, de mim e do mundo, só que, embora pudesse chegar-lhes, não posso aceder-lhes, não posso tocar-lhes. Vejo-os a pairar em meu redor, como uma galáxia da qual eu própria faço parte, mas distanciada o suficiente para não me identificar com eles, o resto de mim e o resto do mundo. Neste momento só o meu Dono tem livre acesso ao interior da esfera, e ao interior de mim mesma, só Ele pode atravessar o invólucro, num processo quase osmótico. Sem o danificar, entra e sái com a naturalidade de quem entra e sái da Sua propriedade. Move-se no seu interior como se o conhecesse desde sempre. Porque todas as partes de mim são Dele, e esta é só mais uma, eu exploro-a, para ter cada vez mais para Lhe dar.

Saturday, 13 October 2007

PONTO NO J


Represento apenas um ponto na vida do meu Senhor. Um ponto ínfimo e redondo, desprovido de vontade. Ocupo apenas o meu espaço de ponto, limitado, circunscrito, localizado. Um ponto de admiração pelo meu Dono, um ponto de interrogação mudo, um ponto de equilíbrio no meio do caos, um ponto de passagem para outras realidades, um ponto de fusão de matéria incandescente, um ponto de rebuçado liquefeito, um ponto de encontro de duas linhas paralelas, um eterno ponto de partida. Sou apenas um ponto no J.

Thursday, 11 October 2007

SE O DONO QUISER


Se o Dono quiser, uma escrava pode ter muitas faces, como um cubo, ou mais até. Pode ter arestas, limadas e a limar, lados, bons ou maus ou assim-assim, superfícies, planas e curvas, tudo o que o Dono desejar.

Se o Dono ordenar, uma escrava pode ter modos. Pode estar activa, em stand-by, desligada.

Se o Dono consentir, uma escrava pode até ter fases, como a lua. Pode ser, por exemplo, uma escrava minguante, uma escrava nova, uma escrava cheia.

Com a permissão do Dono, esta escrava está em quarto crescente. O que indica, desde logo, que está a crescer.

Quanto ao resto, pouco se sabe ainda, excepto que tem cor dourada, como o mar às vezes, cheira a jasmin como um insenso, soa a taças tibetanas como um mantra e é como um coçar por dentro da garganta, muito ao de leve.

A escrava agradece ao Dono e pede desculpas por esta interrupção.

O dark side of this moon segue dentro de momentos.




Tuesday, 9 October 2007

DESCOBRIR AS DIFERENÇAS

Foto : Tokyo Kink Society

Uma boa parte das relações humanas mantem-se numa base de Dominação/submissão. Mesmo aquelas que supostamente não se baseiam, vivem em algum momento desse confronto, mais ou menos evidente, mais ou menos perceptível, entre - ainda que momentaneamente - o mais forte e o mais fraco. São relações baseadas no medo. Domina-se por medo de perder alguém ou alguma coisa - o alvo da dominação, o poder, a razão, a imagem, a admiração dos outros - e é-se dominado exactamente pelas mesmas razões. Não faltam exemplos de casos concretos, em relações profissionais, familiares, conjugais e até de amizade. Diria que enquanto cada um se remete ao seu papel, a relação funciona; quando há uma parte que renuncia a continuar - normalmente o elo mais fraco - a relação tem tendência a acabar. São relações desiquilibradas, baseadas em falsos princípios e em situações pouco claras. São relações traumáticas, porque normalmente quem se sujeita fá-lo porque não vê outra opção e quem exerce o poder, também não. É típico dessas relações o dominado esconder dos outros a sua condição, e embora em privado se sujeite às maiores humilhações, raramente o deixa transparecer para o exterior. É vulgar, até, de alguma forma procurar justificações para o comportamento de que é alvo e procurar desculpabilizá-lo, perante si mesmo, mas principalmente perante os outros. Pôr pó-de-arroz sobre algo que muitas vezes não se quer ver. As vítimas de violência doméstica tendem esconder as provas físicas dessa violência e a inventar explicações para encobrir a sua própria vergonha e a culpa do agressor. Por medo.

Penso que é exactamente nesse ponto que difere destas uma relação bdsm. Porque se baseia na coragem e não no medo. Na coragem de quem Domina e de quem é dominado. Coragem de ver e de assumir. Coragem de se conhecer a si mesmo e ao outro em profundidade. Coragem para testar os limites, os seus e os do outro. Coragem para proporcionar ao outro o que o outro gosta.
Coragem deriva do latim cor - coração. É talvez essa abertura de coração que faz a diferença. Quem Domina e quem é dominado não oculta a sua condição e se não a vive em pleno é, as mais das vezes, por uma questão de respeito por quem não entende essa opção de vida. Nos meios onde é possível expressar-se livremente, Dominador e submissa tendem normalmente a exibir a sua situação, não a disfarçá-la. E mesmo quando essa "estranha" forma de amor deixa marcas, a submissa costuma exibi-las com orgulho, como um troféu. É talvez por isso que muitas vezes se entreabre a porta da privacidade e se deixa espreitar quem passa. Não por exibicionismo barato, não por promiscuidade, mas por um imenso orgulho. Mas o melhor de tudo, é o que se passa do lado de dentro. E o melhor, guarda-se sempre para o Dono. Eu guardo.




Thursday, 4 October 2007

"QUERO O TEU CORPO...PÚBLICO"



Este corpo que eu carrego, já deixou há muito de ser meu. Propriedade do Senhor JB, que dispõe dele como quiser. Hoje, público, como Ele o quis.






Tuesday, 2 October 2007

MASTER OF SIMPLIFICATIONS


Uma a uma, o meu Dono vai arrancando todas as camadas de mim. Umas separam-se facilmente, finas como casca de uma cebola, apartam-se de mim como gomos de um fruto maduro, outras custam a despegar-se como crosta que se arranca de uma ferida.
Mas pouco a pouco, com a certeza e a visão de que é feito, retira tudo o que em mim é supérfluo. Como um escultor retira da pedra bruta todos os excessos Ele cinzela-me até deixar à vista somente o essencial, o simples, eu. Ínfima, subatómica, nuclear. Despoja-me de tudo o que não seja a mais pura submissão a Si. Haverá sítio melhor de onde começar?

Saturday, 29 September 2007

O MEU QUADRADINHO


O meu Dono deu-me um quadradinho onde eu existo.

Quatro linhas invisíveis, tão reais e intransponíveis como paredes sólidas, que traçam a fronteira entre dois mundos paralelos.

Movo-me nas pontas dos pés nesse espaço limitado, percorro os quatro lados com as palmas das mãos, apalpando-lhes a forma. Reconheço-lhe os cantos, palmilho-lhe a área. Bato com os nós dos dedos ao longo do perímetro, procurando alguma passagem oculta para o exterior.

Pinto-o de muitas cores, revisto-o de sensações, forro-o de memórias.

O meu Dono observa-me de cima, como um predador atento a todos os movimentos da sua presa, esperando pacientemente o momento de avançar. Como num jogo de estratégia, aguarda a altura certa para fazer a próxima jogada.

Por vezes vê-me aninhada a um canto, muito quieta, procurando ver para além dos traços, outras atirada violentamente contras as paredes maciças, torturada pela incerteza, massacrada pela dúvida, chacinada pela ausência. Outras ainda comprimida, sufocada pelo confronto com as barreiras que me impôs.

É só quando me atira a corda que me liga a Ele que eu percebo que esteve sempre lá, atento e seguro, enquanto eu me debatia com fantasmas inventados em vez de permanecer tranquila e confiante à Sua espera. Ajoelhada e reverente, como estou agora.





Friday, 28 September 2007

COMPASSO DE ESPERA


Os dias passam devagar sem a presença do Dono. Tento iludir o tempo sabendo que ele não se deixa iludir. A mulher sente-se solidária e guarda profundo respeito. Mas a submissa não recebeu ordem para parar. A escrava anseia pela Mão que a dobra, a tritura, a subjuga. Que a agarra com firmeza pelos cabelos e a faz lamber o chão que o Dono pisou. Que a prende, a amarra, a pendura no ar como uma estranha espécie de pássaro.

Monday, 24 September 2007

NÓS, OS INFINITOS




Hoje não durmo. Não posso, nem quero. Há na minha cabeça um imenso corredor que me leva ao ponto exacto onde começa e acaba a minha fantasia. Deixo-me percorre- lo nas pontas dos pés, devagar, momentâneamente sozinha, simultâneamente agarrada a Si como coisa que está por baixo da pele, estranhamente inteira, eternamente indivisível. Ainda atordoada. Ainda suspensa.

Sunday, 23 September 2007

BDSM CRUELTY-FREE

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Saturday, 22 September 2007

EXCEPTO ORDEM EM CONTRÁRIO





Este blog existe com uma finalidade bem definida : agradar ao meu Dono.

Durante bastante tempo esteve parado, porque pensei que não se interessasse e abandonei a ideia.

Durante muito tempo não o divulguei porque pensei-o como mais um espaço de intimidade. Com o consentimento do meu Dono, comecei com uma pessoa da minha confiança, depois outra, pessoas que eu sabia iam compreender o que escrevo, mas sei que a partir de uma certa altura deixa de estar na minha mão seleccionar a entrada. É de certa forma abrir a porta da nossa intimidade e convidar a espreitar quem quer que passe.

Saber que há eventualmente outras pessoas a ler o blog não me desvia um milímetro do meu objectivo principal e não afecta de forma alguma aquilo que escrevo. Se o que se passa cá dentro for interessante, as pessoas vão voltar. Se não for, irão naturalmente embora.

Mas eu fico, e o meu Dono também.

Tudo o que aqui se lê faz parte de mim. Por isso, sou natural e espontânea naquilo que escrevo, simples, humana. Não tenho pretensões literárias nem demasiadas preocupações estéticas, embora queira oferecer ao meu Dono o que de melhor haja em mim em cada momento. Às vezes de uma forma mais leve e divertida, outras de forma pungente e quase dolorosa, sou eu em oferenda ao meu Dono em cada palavra, cada linha, cada pensamento que lhes está subjacente. Realidade ou ficção, nunca é mentira. Podia - e faço-o - escrever-Lhe em privado, mas esta é uma das poucas formas que tenho de mostrar ao mundo o quanto Lhe pertenço, o quanto O venero, o quanto sou incondicionalmente Sua.

Embora por vezes seja difícil, resisto à tentação de escrever sobre outros temas, este blog é - como alguém que em poucas palavras já me revelou uma sensibilidade apurada e rara perspicácia muito bem definiu - sobre " a relação que mantém com JB, o seu Dono e Senhor " .

Qualquer breve alusão a outro tema, se a houver, será de forma enquadrada nesta premissa, e tratada neste contexto. Excepto ordem em contrário...



Friday, 21 September 2007

MEA CULPA


Apesar de todos os meus esforços para agradar o meu Dono, servi-Lo e satisfaze-Lo de todas as formas possíveis, sem olhar a meios, sem questionar ordens, da melhor maneira que sei, há alturas em que não consigo atingir o objectivo.

De súbito sinto-me numa situação que não entendo e não desejo.

É como se desse voltas e mais voltas para evitar cair num buraco e de repente, sem perceber como e sem poder evitar, desse comigo lá dentro.

Sejam quais forem as razões do meu fracasso, nesses momentos o meu mundo desaba.
E sob o peso das ruínas, eu tento perceber o que fiz ou o que não fiz, como uma criança atordoada que sabe foi merecidamente castigada mas sem entender muito bem porquê.
Suicídio involuntário. Em que ponto exacto falhei ?

Do que resta de mim, apanho um a um os pedaços e recomeço a erguer, incansável, a escrava que quero ser.
A que tem a forma do meu Dono.
Perdoe-me, Senhor, pela minha incompetência.

Wednesday, 19 September 2007

MARCAS


HAVE FUN


BDSM para mim é um assunto sério. Envolve um enorme respeito, uma profunda veneração, um orgulho desmedido e uma atitude de permanente reverência pelo meu Dono.

Ser escrava do Senhor JB ocupa uma parte significativa do meu tempo, a maior parte dos meus pensamentos, toda a superfície do meu corpo e a imensidão da minha alma.

Ser escrava do Senhor JB satisfaz as minhas necessidades, dá corpo aos meus desejos, realiza os meus sonhos. Aviva a minha feminilidade, desperta os meus instintos de fêmea. Faz-me sentir mulher.

No entanto, sendo sério, não tem que ser grave, sisudo, cinzento e maçudo. Seriedade não exclui sentido de humor, bem pelo contrário, refina-o.

O bdsm, como a vida, pode ser altamente divertido, animado, inspirador.

Para quem não o viva como uma patologia, uma fatalidade, uma versão grosseira de hedonismo, uma forma de compensar alguma lacuna ou sublimar alguma frustração, ou como uma falta desesperada de alternativas, o bdsm pode ser, de facto, uma aventura tão divertida, fascinante e ilimitada quanto a própria vida.



Friday, 14 September 2007

DON'T SAY A PRAYER FOR ME NOW...













SAVE IT TILL THE MORNING AFTER...

A ESCALADA









"Traz-me as cordas."
Recuei, descalça, até à porta da sala, depois voltei-me e corri ao quarto a buscá-las.
Não esperava o meu Dono hoje. Tinha-me ligado de manhã, demorou algum tempo ao telefone e sei o quanto tem andado ocupado, o quanto o momento é difícil. Deixei-me ficar numa zona de conforto, quieta para não atrapalhar, quieta porque o momento não é fácil e eu sei disso tudo. Moderada. "Pensas que és o quê? Minha amiguinha?"
À mistura com outras coisas, e Ele sabe disso tão bem como se me lesse os pensamentos antes de eu sequer os pensar.
Voltei com as cordas e a coleira na mão e ajoelhei-me aos Seus pés. O meu Dono agarrou a primeira corda com ambas as mãos e esticou-a, fazendo-a deslizar entre os dedos cerrados. Atou-me com firmeza, os braços ao longo do corpo, em voltas paralelas acima e abaixo do peito. Comecei imediatamente a sentir a energia das cordas, o calor que se desprende delas como de nenhumas outras. Com a segunda corda, o meu Dono uniu na frente a anterior, e passou uma laçada à volta dos ombros até às costas, obrigando as mamas a levantar e projectar-se para a frente como se quisessem separar-se de mim. Levantou-me o antebraço, única parte solta dos braços, já que toda a zona entre os ombros e os cotovelos estava completamente imobilizada junto ao corpo, até ficar em ângulo recto. Com o resto da corda amarrou-me os pulsos, à largura do corpo. Sinto mais forte a constrição das cordas. Tem em mim o efeito narcótico de uma droga, sinto-me entorpecer em cada volta, sinto-me quebrar em cada nó.
O meu Dono arrancou-me do meu estado de letargia : "Agora sim, quero a cerveja".
Acho que já tenho alguma prática de fazer coisas amarrada, embora por vezes seja preciso uma pequena dose de contorcionismo, mas nada demais.
Voltei tão rápido quanto pude e entreguei a garrafa gelada ao meu Dono.
"De joelhos" .
Sorrio, não acredito, só nesse momento precebo que a cana fininha que tinha deixado num canto da sala, para mais tarde fazer uma gag toda hi-tech, não escapou ao olhar atento do meu Dono...
"Traz molas" - Volto a levantar-me e, como posso, trago do armário duas molas tipo alicate, que o meu Dono em tempos uniu uma à outra por um fio.
Ajoelho-me de novo em frente ao meu Dono e ofereço-Lhe as molas que me prega com força nos mamilos.
"Vai buscar a ball-gag"- o meu Dono faz-me levantar de novo, meio desengonçada e fazer mais uns quantos malabarismos para chegar à ball-gag dentro do armário.
A bola dentro da boca separa-me violentamente os maxilares, mas não tenho muito tempo para pensar no desconforto que me causa.
O meu Dono sobe o volume do som. A Beth Gibbons espalha a voz doce pela sala , nobody loves me, it's true..., agora um pouco mais alto.
Nunca antes tinha apanhado de cana. Os golpes são certeiros, precisos, concentrados. A dor é lancinante. Sobretudo quando a cana bate sistematicamente no mesmo ponto, sem intervalos para a dor se espalhar, se dissolver, e o corpo se preparar para o próximo golpe.
Deve ser por volta desta altura que deixo de me preocupar se a barriga está encolhida, se se vê a celulite ou se pareço assim tão feia vista de fora.
O meu Dono acompanha cada bordoada da respectiva explicação. Como um filme legendado, para eu perceber melhor. Não se trata de simples capricho ou de puro sadismo, embora pudesse ser, claro. Há uma razão para o meu Dono arrear em mim com os dentes cerrados e um esgar de fúria. "Tu, ou és minha escrava, ou não és. Não penses que vais deixando de ser". Estremeço de dor e vergonha. Gotas de suor escorrem-me pelas costas.
" Tens noção que a praia acabou para ti, este ano..." - Logo agora que descobri aquele areal a perder de vista, aquele mar que nem parece do norte...Paciência.
O meu Dono não mostra sinais de misericórdia. Os golpes são cada vez mais fortes.
As lágrimas saltam-me dos olhos, em jorros. De vez em quando a dor é quase insuportável e eu deixo-me cair sem forças sobre os pés. Nessas alturas, o meu Dono bate repetidamente com a cana nas molas que me trituram os mamilos e eu volto imediatamente à minha posição ajoelhada, costas direitas, de perfil para Ele.
O meu Dono aumenta a frequência e a intensidade dos golpes. Encolho-me de cada vez que sinto o braço ir atrás ganhar lanço para se abater sobre as minhas nádegas massacradas. Se me mexo muito, o meu Dono bate-me na planta dos pés, impiedosamente.
A dor atinge proporções quase intoleráveis. Eu choro, compulsivamente. "Queres diz er a safe-word?" Olho o meu Dono nos olhos, a soluçar. "Estás a suplicar que pare?". Abanei a cabeça em todas as direcções. Não devo ter sido muito clara.
A cana vai-se fazendo em pedaços. Poderia parecer que isso aligeira a dor, mas não. As pontas soltas e desencontradas actuam como as pontas de um estranho chicote e atingem para lá da zona de impacto, contornam as nádegas e rasgam a pele da coxa como instrumentos cortantes.
O meu Dono dá-me para a mão uma bola colorida. "Deixas cair a bola e é como se dissesses a safe-word". Agarrei com força a bola entre as mãos. Suspeitei que ia doer.
Lágrimas, suor, ranho, baba que me escorre em quantidades inusitadas pelo queixo, um cocktail de secreções que o meu corpo expele como uma purga. Cravo as unhas na bola. E vou-me sentindo limpa, purificada.
O meu Dono tira-me a ball-gag e começa a desatar-me as cordas. "Não, por favor, não tire!" Eu choro. O meu Dono ri-se. Agarra os meus cabelos e leva-me a cara ao chão. Depois, levanta-me bruscamente e, sem deixar de repuxar os cabelos, desata as cordas com a outra mão.
Já não me sinto estranha, nem absurda, nem ridícula. Já não me sinto uma aberração.
Sinto-me como se tivesse escalado o Evereste. Sento-me no topo, a contemplar a paisagem à volta.


cadela de JB


O meu Dono conhece todos os cantos de mim.

Conhece o meu corpo, centímetro a centímetro. Todas as imperfeições, as curvas e contracurvas, reentrâncias e saliências, os ritmos, as cadências, todos os altos e baixos.

Conhece o meu passado, o meu presente e o meu futuro.

Mas sobretudo, conhece a minha mente, sabe exactamente como funciona a minha cabeça.

Sabe o que vou pensar e quando. Observa-me com o rigor do método científico. Ou a descontracção de quem se senta sózinho numa esplanada ao final da tarde só para ver o mar. Ou a curiosidade de um miúdo que espreita com espanto o fundo de um caleidoscópio.

Diverte-se a ver-me contorcer e quase a asfixiar sob o peso da dúvida, quase perdida no labirinto do meu pensamento.

Quando penso que está distraido, ausente ou até desinteressado, o meu Dono surpreende-me sempre com uma dose inesperada de atenção, presença e interesse. Ou então ignora-me e fica a ver-me espernear.

Sabe que eu vou escrever o próximo post. Aposto até, que palavra por palavra. Sabe que não resisto, sabe que quase rebento de orgulho, sabe que derreto de vaidade. Sabe que é superior a mim esconder o quanto sou Dele.

Sabe isto tudo, só talvez não saiba porquê. Ainda.


Wednesday, 12 September 2007

BDSM EM ESTADO LÍQUIDO






Uma boa submissa, como um bom Dominador são como um bom vinho.

Para além do potencial que lhe é próprio, precisa do tempo e das condições ideais de conservação e maturação para poder resultar no melhor de si.

É no equilíbrio entre os vários elementos que reside a qualidade do néctar, tal como é o equilíbrio entre Dominador e submissa que determina a qualidade da relação.

Mas de que serve oferecer um bom vinho a quem não o sabe apreciar?

Que adianta ser uma boa submissa se não houver a quem se submeter, a quem se entregar de corpo e alma, que saiba receber e apreciar a entrega ?

E de que serve sentir-se Dominador se não encontrar o objecto da Sua dominação, se não puder expressar o Seu poder sobre alguém que não se submete por medo, mas pelo infinito prazer de ver desdobrar-se e multiplicar-se diante de si uma imensa variedade de cores, aromas, e sabores ?

Rubi com laivos acastanhados ou cor púrpura. Aroma elegante a fruta madura ou um toque de especiarias. Envolvente e arredondado na boca ou frutado e macio. Tantas são as possibilidades!

Porém, da mesma forma que o fim de boca é um importante indicador da qualidade do vinho, que faz a diferença entre um vinho vulgar e um bom vinho, também entre Dominador e submissa é fundamental que as sensações se prolonguem no tempo para lá do momento da prova.

Final suave ou intenso e persistente. A escolha...é Sua.

Wednesday, 5 September 2007

O que é submissão ?

" Não é mera obediência externa, nem tão pouco quando controlado.

Submissão é prestar obediência inteligente a uma autoridade delegada.

É exteriorizar um espírito submisso, mesmo quando ninguém está por perto.

É renunciar à opinião própria quando se opõe à orientação daqueles que exercem autoridade sobre nós.

Ser submisso não aniquila, nem castra a personalidade de ninguém. Pelo contrário, realça a vida de qualquer um. "


Monday, 3 September 2007

(DO IT WITH) PRIDE


O meu Dono chegou como sempre, imprevisível. Só tive tempo de pagar à pressa as compras na Fnac e voltar para casa a correr.
Subimos juntos e logo que passo a porta livro-me rapidamente da roupa.

Servi-Lhe um whisky com gelo e aninhei-me no chão aos Seus pés, como o costume. Pouco depois manda-me jantar, nua, no chão à Sua frente, enquanto com o meu portátil no colo, percorre as minhas pastas como muito bem entende.

Eu sou Dele e comigo tudo que é meu. Tira mistérios e fantasias das minhas gavetas como um mágico tira lenços coloridos de uma cartola.

Algum tempo depois mandou-me experimentar dois ou três vestidos. Escolheu um de veludo negro, de alcinhas, um pouco acima do joelho : " - Este. E calça-te, arranja-te, vamos sair." Opto por uma sandálias de tirinhas pretas, a noite está quente.

"E passa-me uma camisa" . Montei rápidamente a tábua de passar. O meu Dono aproximou-se por trás de mim e subiu-me o vestido até à cintura. Enquanto tentava passar-Lhe a camisa, o meu Dono penetrou-me violentamente. Passar uma camisa a ferro enquanto se é fodida não é tarefa fácil.
" Quieta, puta, não estás a foder, estás a passar-me a camisa. ".
Quando finalmente acabei, trémula e a escorrer, acabei de vestir o meu Dono, baixei o vestido, calcei-me e saimos. Óbviamente nua por baixo do vestido. Na bolsa, a coleira de escrava.
O meu Dono quis comer alguma coisa antes, eu sigo-O pela rua como uma cadelinha, do Seu lado esquerdo, sempre um passo atrás. Ele pára, eu paro. Ele anda, eu ando. Corro abrir-Lhe as portas, do carro, do restaurante e sigo atrás Dele, onde quer que vá.

" Vamos lá ao tal bar. " Paramos o carro num lugar bastante estreito, tive alguma dificuldade em sair mas acabei por conseguir.

Entrei no Pride atrás do meu Dono, olhos baixos. Já lá dentro, o meu Dono colocou-me a coleira. Este gesto, tantas vezes repetido, é sempre um momento de grande intensidade, de sentido ritual. Com ou sem coleira sou sempre Dele, mas ostentar com orgulho, para mais num sítio público, o símbolo máximo da Sua posse, faz-me quase levantar do chão. Afasto o cabelo com a mão, estendo o pescoço, em estado de profunda submissão.

Vou buscar uma bebida para o meu Dono, o barman sorri-me, cúmplice. Por todo o lado há homens abraçados, aos beijos, mulheres acariciando outras mulheres, travestis. Acendo-Lhe o cigarro.
Sento-me num puff, um pouco mais baixo que o sítio onde o meu Dono, sentado, espera pela bebida.

"Abre as pernas. Uma mão sobre cada joelho. " Assumi de imediato a posição, mas o meu Dono enfiou o joelho entre as minhas pernas e abriu-mas ainda mais.

Ficamos ainda um pouco, até o meu Dono decidir ir embora. Segui atrás Dele para a rua, sem me tirar a coleira.

- Não sei se vou conseguir entrar...- Espremi-me contra o vidro - "Levanta a saia". Eu levantei. "Mais" . Arregacei o vestido até ficar com o rabo completamente à vista e deslizei esborrachando-o contra o vidro até cair no assento, enquanto alguns carros passavam na rua rente a nós. Puxei o carro atrás para o meu Dono entrar e arrancamos.

O meu Dono abriu o fecho das calças o tirou-O para fora, já duro. Tirei a mão direita do volante, agarrei Nele e comecei a acariciá-Lo.

"Chupa" - O meu Dono segurava no volante enquanto me inclinei sobre o Seu colo e o meti na boca. Devo instintivamente ter levantado um pouco o pé do acelerador porque o meu Dono reclamou e mandou-me acelerar. Acelerei e continuei a lamber, enquanto o meu Dono mantinha o controlo do volante.

Esta noite, o meu Dono deixou-me dormir na cama, ao Seu lado, para me poder usar. Lambi-O até sentir que tinha adormecido, apaguei a luz e cheguei-me para baixo, para o meu lugar junto ao Seu sexo.

Obrigada, meu Dono, por levar a Sua cadela à rua.


Saturday, 1 September 2007

SEDE DE SI


- Está curto agora, meu Dono, não dá, escorrega – dizia eu.
- Pois, não dá... – concordou o meu Dono, com ar complacente – É pena...
Agarrou-me subitamente pelos cabelos e repuxou-mos com força no alto da cabeça.
- É. Não dá...
Agarrou na corda virgem e enrolou-a com destreza numa série de voltas apertadas em torno da mecha de cabelos que mantinha firmemente esticados entre os Seus dedos.
- É uma pena...
Os repelões fortes faziam-me humedecer e cerrar os olhos. A minha cabeça num vai-vem desgovernado ao sabor dos puxões impiedosos do meu Dono.
- Escorrega, não é? Escorrega...
A corda mantinha os cabelos num puxo comprido e bem esticado, um rolo perfeito no cimo da nuca.
O meu Dono puxou-me pelas duas compridas pontas que deixara soltas e arrastando-me com a cabeça de lado até junto do sofá, fez-me ajoelhar aos Seus pés.
- Vês, escrava ? Não dá mesmo! – no mesmo tom sarcástico – enquanto me puxava pelas cordas a cabeça em todas as direcções.
Baixei os olhos, envergonhada.
Com a segunda corda, o meu Dono ata-me agora as duas mamas em voltas perfeitas, projectando-as para a frente, cheias e comprimidas.
O que sobra da corda desce-me pelo tronco e passa-me entre as pernas, bem retesada, comprimindo o clitóris e afundando-se entre as nádegas, subindo novamente bem esticada pelas costas até prender junto ao pescoço.
Cada movimento da cabeça, por mais subtil que seja, faz a corda de baixo esmagar o clitóris, cada vez mais saliente, arranha a pele sensível do sexo entre os grandes lábios entumescidos, e esfola-me toda a zona em volta do olho do cu.
O meu Dono ergue-me pelas pontas da corda e prende-as no gancho da parede, obrigando-me a permanecer nas pontas dos pés.
Consigo olhar a corda negra retinta que envolve as mamas. Fica linda, em voltas perfeitas sobre a pele morena.
Sinto o calor das cordas abrasar-me o corpo. Sinto toda a energia das cordas que quase me queima. Sinto a sua história que faz agora parte de mim. Sinto os meus fluídos a encharcar a corda como um mata-borrão.
Sinto a cor dos nós, sinto a cor de nós.
Sinto a sede anunciada a secar-me a boca, como o recuo da onda sobre a areia quando a maré baixa.
O meu Dono, confortavelmente sentado no sofá, agita levemente o copo de whisky, fazendo tilintar as pedras de gelo, enquanto eu me equilibro nas pontas dos pés, como a prima ballerina duma dança surreal, pendurada de um gancho na parede a dois metros Dele.
Sinto a boca como a superfície seca e gretada dum solo árido depois da seca prolongada.
“ - Vejo sede. Sentiste sede? ”
Sinto sede.
Sede de água, sede da verdade, sede do meu Dono, sede da Sua mão pesada a desabar sobre o meu corpo.
Uma sede imensa e profunda, insaciável de Si.



As marcas que o meu Dono deixa em mim vão muito para além dos sulcos na carne, do corpo dorido, da ardência da pele, da febre do sangue que me borbulha nas veias quando estou na Sua presença.

Num relance, encontrou o caminho para a minha alma submissa e foi lá bem fundo que cravou os ferros compridos que me atormentam, que prendeu as pesadas correntes que me agrilhoam, as sólidas amarras que me prendem a Si.

Todos os dias inventa novas formas de me subjugar, só pelo gozo de me apanhar desprevenida, de brincar comigo como um predador com a sua presa, antes de desferir o golpe final.

Em cada momento refina a arte de me dominar, só pelo prazer de me fazer ceder, de me ver dobrar.

A cada instante me destrói e me reconstrói, me apaga e me desenha de novo, me molda nas formas que de mim quer ter.

E eu cedo, eu dobro, evaporo-me, desfaço-me, renasço das minhas próprias cinzas só pela eternidade que encerra numa fracção de segundo aos Seus pés, o derradeiro prazer de O servir.



Wednesday, 29 August 2007


Escolher a via da submissão nem sempre é fácil.
É um caminho íngreme, que precisa ser atentamente vigiado e cuidado a cada momento para manter livre de ervas daninhas, de ideias indesejáveis, de pensamentos distorcidos, de armadilhas da mente.
Eu sou o brinquedo do meu Dono. Um joquete nas Suas mãos, que Ele usa quando e como muito bem entende.
Quando não me quer, arruma-me na prateleira, longe da vista, ou deixa-me espalhada pela sala em pedaços.
É a Sua vontade, e eu não posso perder nunca de vista o objectivo primeiro da aceitação total.
A vontade do meu Dono é a minha vontade - repito-o vezes sem conta até se colar a mim como uma segunda pele.
E consciente do meu lugar, sinto-me feliz e agradecida por poder servi-Lo.