Thursday, 11 September 2008

HAPPY ATÉ NÃO PODER MAIS



Adoro surpresas. O meu Dono sabe o quanto adoro surpresas. Mas, condição essencial para apreciar como deve ser uma surpresa, é deixar-se surpreender. E, para se poder surpreender convem não esperar. Não criar expectativas. Nem barreiras, a surpresa precisa de espaço para se desenrolar. Surpresas são como manchas de tinta, podemos cobri-las com um mata borrão ou deixa-las espraiar e ve-las criar sozinhas infindáveis desenhos psicadélicos. Depois, é preciso saber gozar todos os detalhes da surpresa : o que está subjacente, e como a maior parte do iceberg, não é visível; o que é óbvio, mas que a muitos olhares passaria despercebido.

Surpresa nr. 1. O telefone apita logo de manhã. O meu Dono lembrou-se. Estender da surpresa, lembrou-se logo de manhã. A mancha de tinta alastra.
Uns minutos antes da hora marcada, o telefone toca, eu desço. Por essa altura começo devagarinho a descolar do chão.
Surpresa nr. 2. O sítio. Especial, cheio de pequenos requintes silenciosos. Surpresa nr. 3. As cores. Tons fortes, cores quentes, misturas arriscadas. Surpresa nr. 4. Os cheiros. Deixo-me encharcar de perfumes, até não poder mais. Afrodisíacos, inebriantes. Gengibre, canela, cardamomo. Surpresa nr. 5, sabores. Levemente picante, agridoce, o aveludado do molho a desmanchar-se na boca, a textura lisa, suave. O frescor da menta, o calor do caril. O Evel branco sorvido aos poucos, enquanto tudo à volta se começa a esvair em névoa cor de oriente.

E, quando penso que não podia ser melhor, surpresa nr. 6, descubro que claro que pode. O molho espesso de chocolate quente derramado sobre o bolo e em linhas aparentemente negligentes sobre o fundo branco do prato. As gotas de doce de frutos silvestres deixadas cair aparentemente ao acaso numa linha semi-curva. As rodelas impecavelmente iguais de gelado, de onde se adivinha um leve sabor a baunilha, salpicadas de côco e raspa de chocolate. Quente e frio. Alternadamente na boca pela mão do meu Dono, surpresa nr. 7 - crème de la crème . Fecho os olhos para poder saborear melhor. Devaneio sensorial. Já não há conversas de fundo, nem clientes, nem empregados. Apenas uma surpresa que continua a abrir-se, imparável. Por momentos ficamos sozinhos na sala, eu, o meu Dono e a fantasia por onde me deixo conduzir de olhos fechados. Os estores correr-se-iam e eu seria usada, um a um por todos os homens da sala. Sinto o poder na expressão do meu Dono, o poder de tornar a fantasia real.

Já cá fora, encontro o meu Dono sentado nas escadas a fumar um cigarro. Peço permissão para fumar um também. Sabe bem como aquele cigarro depois do sexo. Sinto-me quase extenuada de gozar tanto o momento. O calor dos condimentos, o odor das aromáticas, os contrastes quase perigosos, os mimos do meu Dono, que melhor prenda de anos poderia eu querer?

4 comments:

disparosacidentais said...

feliz aniversário.

Anonymous said...

Parabéns e cumprimentos ao teu Dono :)

bondarina_MA

Esparsa said...

Feliz aniversário!

À laia de presente, deixo-te um poema de Reinaldo Ferreira que acho que vais gostar:

"Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto."

beijinhos

Sua escrava said...

Obrigada aos três pelos parabéns e o resto.