Wednesday, 1 October 2008

MAKE IT SIMPLE

A minha ligação ao meu Dono tem contornos que estão para lá da minha compreensão. Não vou falar das coincidências que me deixam sempre assombrada, nem das sincronicidades e de outras manifestações do inexplicável. Nem vou falar da comunhão, da cumplicidade quase visceral, da intimidade tão profunda quanto natural. Nem de coisas mais difíceis de acontecer do que encontrar uma minúscula agulha hipodérmica num palheiro enorme.
Falo do meu espanto ao ver-me reagir contra todas as probabilidades, falo da minha incredulidade ao desafiar a lógica e do meu divertimento a ver cair por terra silogismos que me levaram tantos anos a elaborar. Falo de convicções meticulosamente construídas ruirem a um sopro do meu Dono.
E da minha surpresa quando sozinha perante puzzles gigantes, a tentar resolver quebra-cabeças insolúveis, constato surpreendida que afinal é tudo tão simples.
E, se ainda assim alguma dúvida persiste, divido-me em duas, a que está fora e a que está dentro. E a que está dentro esquece tudo o que aprendeu, apaga todas as regras, elimina todos os princípios, excepto um - o que manda obedecer.
Talvez quem está de fora veja apenas um animal assilvestrado que aos outros exibe as garras afiadas, as presas brilhantes e ao chegar ao pé do Dono, se roça docilmente pelas Suas pernas.

11 comments:

disparosacidentais said...

seguramente não vejo isso.
(mas antes algo menos simples.)

Sua escrava said...

A maior parte das vezes as coisas são simples. Nós é que temos tendência para as complicar. beijo.

disparosacidentais said...

a maior parte das vezes talvez. ainda assim, há coisas que se recusam a essa simplicidade que permite o entendimento (por muito que gostassemos que não fosse assim). e talvez: ainda bem.
- tu não és simples.
beijo também.

Sua escrava said...

tens razão, não sou simples, nunca disse que o era. degladio-me com as minhas complicações desde que acordo até que me deito e algumas até me perseguem em sonhos. alucino com gansos a esvoaçar a minha volta, ameaçadores como corvos do Hitchcock. No entanto, talvez ironicamente, é no apertar de uns nós que outros se desatam. de há quase dois anos para cá, dia após dia, tenho aprendido uma nova forma de olhar para as coisas, tenho aprendido a descartar tudo o que não interessa, e uma a uma, as minhas comlicações desvanecem-se e é como se nunca tivessem existido. um dia, estou certa, vou chegar ao essencial. simplicidade pura.
outro beijo

disparosacidentais said...

compreendo tudo isso. mas do que eu tenho medo é do essencial. é que o essencial poderá não corresponder às expectativas. pode não ser nada mais do que uma aparência do nada.
(mas, eu sei-o, isso pode ser apenas um medo meu.)

p.s.: por tudo o que escreves e permites tentar compreender: obrigado.

Sua escrava said...

Pois normalmente é o que acontece com as expectativas : estragam tudo. Experimenta despir-te delas, primeiro nas pequenas coisas, e pouco a pouco nas mais importantes. Garanto-te que te vais surpreender. Os medos atrapalham bastante, mas descansa, só existem enquanto lhes deres existência, para lá disso, esfumam-se. Quanto ao essencial, falo do estado puro, não adulterado, não conspurcado com preconceitos, tabus, ideias dos outros. Se é ou não uma faceta do nada, ainda não sei. Mas não me assusta o nada como ponto da partida para a liberdade inteira.

Esparsa said...

"Mas não me assusta o nada como ponto de partida para a liberdade inteira."

esta frase é. Só assim se pode ser.

disparosacidentais said...

isso do nada não é uma impossibilidade lógica?
expectativas? felizmente tenho muito poucas. e fáceis de superar.

Sua escrava said...

A mim parece-me um delicioso estado de alma. De resto, aqui a lógica serve para muito pouco...

disparosacidentais said...

aqui, mas por aí também.

(e, já agora, este blog está cada vez mais adulto - sendo já excepcionalmente bom.)

Cármen Neves said...

“...E a que está dentro esquece tudo o que aprendeu, apaga todas as regras, elimina todos os princípios, excepto um - o que manda obedecer.
Talvez quem está de fora veja apenas um animal assilvestrado que aos outros exibe as garras afiadas, as presas brilhantes e ao chegar ao pé do Dono, se roça docilmente pelas Suas pernas.” Meu Deus, que força nessas palavras!!
Beijo querida!