
Falo do meu espanto ao ver-me reagir contra todas as probabilidades, falo da minha incredulidade ao desafiar a lógica e do meu divertimento a ver cair por terra silogismos que me levaram tantos anos a elaborar. Falo de convicções meticulosamente construídas ruirem a um sopro do meu Dono.
E da minha surpresa quando sozinha perante puzzles gigantes, a tentar resolver quebra-cabeças insolúveis, constato surpreendida que afinal é tudo tão simples.
E, se ainda assim alguma dúvida persiste, divido-me em duas, a que está fora e a que está dentro. E a que está dentro esquece tudo o que aprendeu, apaga todas as regras, elimina todos os princípios, excepto um - o que manda obedecer.
Talvez quem está de fora veja apenas um animal assilvestrado que aos outros exibe as garras afiadas, as presas brilhantes e ao chegar ao pé do Dono, se roça docilmente pelas Suas pernas.
11 comments:
seguramente não vejo isso.
(mas antes algo menos simples.)
A maior parte das vezes as coisas são simples. Nós é que temos tendência para as complicar. beijo.
a maior parte das vezes talvez. ainda assim, há coisas que se recusam a essa simplicidade que permite o entendimento (por muito que gostassemos que não fosse assim). e talvez: ainda bem.
- tu não és simples.
beijo também.
tens razão, não sou simples, nunca disse que o era. degladio-me com as minhas complicações desde que acordo até que me deito e algumas até me perseguem em sonhos. alucino com gansos a esvoaçar a minha volta, ameaçadores como corvos do Hitchcock. No entanto, talvez ironicamente, é no apertar de uns nós que outros se desatam. de há quase dois anos para cá, dia após dia, tenho aprendido uma nova forma de olhar para as coisas, tenho aprendido a descartar tudo o que não interessa, e uma a uma, as minhas comlicações desvanecem-se e é como se nunca tivessem existido. um dia, estou certa, vou chegar ao essencial. simplicidade pura.
outro beijo
compreendo tudo isso. mas do que eu tenho medo é do essencial. é que o essencial poderá não corresponder às expectativas. pode não ser nada mais do que uma aparência do nada.
(mas, eu sei-o, isso pode ser apenas um medo meu.)
p.s.: por tudo o que escreves e permites tentar compreender: obrigado.
Pois normalmente é o que acontece com as expectativas : estragam tudo. Experimenta despir-te delas, primeiro nas pequenas coisas, e pouco a pouco nas mais importantes. Garanto-te que te vais surpreender. Os medos atrapalham bastante, mas descansa, só existem enquanto lhes deres existência, para lá disso, esfumam-se. Quanto ao essencial, falo do estado puro, não adulterado, não conspurcado com preconceitos, tabus, ideias dos outros. Se é ou não uma faceta do nada, ainda não sei. Mas não me assusta o nada como ponto da partida para a liberdade inteira.
"Mas não me assusta o nada como ponto de partida para a liberdade inteira."
esta frase é. Só assim se pode ser.
isso do nada não é uma impossibilidade lógica?
expectativas? felizmente tenho muito poucas. e fáceis de superar.
A mim parece-me um delicioso estado de alma. De resto, aqui a lógica serve para muito pouco...
aqui, mas por aí também.
(e, já agora, este blog está cada vez mais adulto - sendo já excepcionalmente bom.)
“...E a que está dentro esquece tudo o que aprendeu, apaga todas as regras, elimina todos os princípios, excepto um - o que manda obedecer.
Talvez quem está de fora veja apenas um animal assilvestrado que aos outros exibe as garras afiadas, as presas brilhantes e ao chegar ao pé do Dono, se roça docilmente pelas Suas pernas.” Meu Deus, que força nessas palavras!!
Beijo querida!
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